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Mar Vermelho e Moisés foram estrelas na TV, mas o que a ciência diz dos feitos?


A ansiedade foi enorme e a realidade correspondeu à expectativa: a sequência que mostrava o profeta Moisés abrindo o Mar Vermelho foi à tela da Record e rendeu recordes à emissora. Entre eles, liderar a audiência no lugar da Globo.

A cena em questão tratou do famoso episódio bíblico onde Moisés comanda os hebreus em sua saída do Egito. Para isso, abre o Mar Vermelho para que seus seguidores fujam da perseguição do faraó Ramses 2º. Para a Record, rendeu pico de 31 pontos e fez de “Dez Mandamentos” um fenômeno na web.

Mas o que a ciência diz sobre a sequência de fatos bíblicos? Os textos que dão origem à cena são ficção ou reflexo de fatos históricos? Cada parte do assunto foi abordada pela BBC em artigo explicativo que mostrou esse posicionamento.

Antes de mais nada, Moisés

Reprodução/TV Record

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Ele era hebreu, não era escravo e, segundo a Bíblia, foi adotado pela família real ao ser abandonado em um berço no rio. De acordo com o egiptolólogo Jim Hoffmeier, essa era uma prática comum no Egito da época.

Ou seja, é possível sim que a história de Moisés tenha ocorrido como é contada na Bíblia. Hoffmeier ainda corrobora a tese afirmando que, na época, crianças não faziam parte da nobreza e por isso o trecho bíblico é verossímil.

A ciência e as dez pragas

Reprodução

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O texto bíblico cita dez pragas que cairiam sob o antigo Egito. São elas: águas do Nilo virando sangue; rãs cobrindo a terra; piolhos aos montes; moscas escurecendo os céus; morte do gado; chagas que atingem homens e animais; chuva de granizo destrutiva; nuvens de gafanhotos; trevas encobrindo o Sol por três dias; e, finalmente, a morte dos primogênitos.

Dessas dez pragas, seis delas podem ser explicadas por uma teoria apenas. Baseada na opinião de epidemiologistas, afirma-se que as pragas podem ter sido causadas pela proliferação de um micro-organismo nas águas do Nilo. Trata-se do Pfiesteria piscicida. Sua presença, em 1999, tornou um rio na Carolina do Norte, nos EUA, totalmente vermelho.

Assim sendo, a causa no Egito poderia ser a presença de poluentes — excrementos de animais, por exemplo — despejados no Nilo. A contaminação pode ter mudado o Pfiesteria como na Carolina do Norte: por conta da mutação genética, deixa de ser inofensivo para ser letal. E então começa a morte dos peixes, a baixa imunidade em humanos e, claro, o reflexo nos animais.

Reprodução/TV Record

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As rãs também entram nesse pacote, uma vez que elas tiveram que invadir a terra, onde morreriam logo depois. Nisso estaria ligado diretamente a chegada da nuvem de moscas e também da proliferação de piolhos, resolvendo as outras pragas. Os gafanhotos e o granizo, por sua vez, são problemas que até hoje assolam o Oriente Médio.

Por fim, os especialistas têm bastante dificuldade de explicar a morte dos primogênitos. Associada a todos esses fatos, essa incógnita é resolvida com a crença de que, para lidar com as outras pragas e misturando religião na história, tenha havido um sacrifício em massa. Mas essa é a parte que não se pode confirmar.

Existem ainda outras grandes possibilidades para as pragas em questão. São elas desastres naturais que, em menor escala, já aconteceram nos tempos modernos. Sem a tecnologia atual, qualquer desastre seria encarado de uma maneira muito mais caótica por qualquer sociedade civilizada, afirmam os historiadores.

Mas… e o Mar Vermelho, abriu mesmo?

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Bem, não existem — é claro! — registros gráficos que provem a abertura do mar. E pensar em duas paredes de água gigantescas com um monte de gente passando no meio soa completamente non sense, não é? Mas a natureza pode sim nos “contemplar” com algo parecido.

Apesar de tudo, o episódio da travessia é o mais controverso. Na própria Bíblia em hebraico, por exemplo, “vermelho” foi traduzida de forma errada. Na versão em questão, Moisés cruza o “yam suph”, que é um “mar de junco”.

Ou seja, a tradução pode ter criado algo bastante fictício para descrever algo que realmente aconteceu. Nesse ponto, especialistas concordam que pode se tratar de uma metáfora para descrever a travessia em algum local bastante adverso. E, mesmo nesses pântanos, é possível sim que os soldados egípcios tenham se dado mal.

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Nas teorias da ciência, o que acontece é que talvez o exército do Egito não tenha sido totalmente dizimado. O que pode ter acontecido é que Moisés conhecia o local e o atravessou com seu grupo. Os soldados não e acabaram caindo em fossos que podem ter até 3 metros de altura — suficiente para fazer alguém se afogar em lama.

Mas, mesmo que Moisés não tenha aberto o mar como a Record retratou, é possível sim que um fenômeno do gênero possa existir — mesmo que ele pareça grotesco demais. Tudo dependeria, no entanto, da existência de um mega tsunami. Simulações com o vulcão Santorini mostra que o colapso na ilha já gerou um tsunami de 182m que viajava a 640km/h.

Nessas condições, a ciência entra e analisa que as famosas “paredes de água” podem acontecer. Antes de tudo, porém, o mar de junco. Um grande tsunami é seguido da retração de águas na costa. Isso, então, poderia ter sido crucial para a travessia de Moisés levando em conta a história escrita em hebraico.

Sobre a incidência desse tipo de evento no Egito, os pesquisadores recorrem a 1994. Neste ano, uma ilha nas Filipinas foi atingida por um terremoto e um tsunami. O tremor abriu uma rachadura em um lago que ficava próximo da costa, gerando um escorrimento de água em formato de cachoeira até o fundo do buraco.

Controversa, a passagem por meio do Mar Vermelho segue baseada apenas em teorias. Norte-americanos, por exemplo, dizem que ventos muito fortes poderiam causar a abertura e possibilitar a passagem. Mas nenhuma delas pode ser comprovada uma vez que colocá-las na prática é impossível.

De qualquer modo, o tema que conquistou a audiência no Brasil também é alvo de estudo de cientistas do mundo todo. Se a história bíblica é falsa, real ou se apenas distorce uma realidade, é impossível afirmar. Mas a ciência tem o poder de provar que várias descrições condizem com a realidade, enquanto outras estão bem longe de serem plausíveis.